Pesquisa do INCT Klimapolis apresentada no ENANPARQ 2026 aponta impactos ambientais e territoriais sobre comunidade Potiguara no RN

A erosão costeira, a degradação dos recursos hídricos e os impactos de atividades econômicas sobre o território indígena Potiguara de Sagi, em Baía Formosa, no litoral sul do Rio Grande do Norte, estão entre os problemas investigados por pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Klimapolis (INCT Klimapolis). Os resultados e a metodologia do trabalho foram apresentados no ENANPARQ 2026, durante o simpósio temático “Emergência Climática e Políticas Urbanas nas Cidades Brasileiras: Desafios da Resiliência Urbana em Áreas Ambientalmente Sensíveis”, vinculado à Rede de Pesquisa Universal/Mackenzie.

Os pesquisadores do INCT klimapolis Afonso Celso Vanoni de Castro e Venerando Amaro desenvolveram com outros pesquisadores do INCT klimapolis o trabalho e apresentaram a experiência do Experimento do Mundo Real (EMR) intitulado “Vulnerabilidade Socioambiental e Resiliência Decrescente na Comunidade Indígena Potiguara de Sagi (RN): Uma Análise Integrada dos Impactos Territoriais, Hídricos e Costeiros”.

Coordenada por pesquisadores do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DECAM/UFRN), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (FAU/Mackenzie) e da OSCIP Agência Costeira, a iniciativa articula conhecimento científico, geotecnologias e saberes ancestrais Potiguara para compreender as transformações ambientais e subsidiar propostas de proteção territorial e recuperação dos ecossistemas.“O Experimento do Mundo Real permite aproximar o conhecimento científico das experiências e dos saberes ancestrais da comunidade Potiguara. Essa integração é fundamental para compreender a complexidade dos problemas socioambientais do território e construir, de forma colaborativa, alternativas que considerem as necessidades da população e a dinâmica dos ecossistemas costeiros.” Destacou o pesquisador Prof. Afonso Castro.

O diagnóstico do experimento relaciona a vulnerabilidade socioambiental da região à insegurança jurídica territorial e às pressões exercidas por atividades econômicas sobre os recursos naturais e os modos de vida tradicionais.

Entre os problemas identificados estão os impactos associados à monocultura sucroalcooleira, como o desmatamento de Áreas de Preservação Permanente, o assoreamento de nascentes e os riscos de contaminação do solo e da água. O estudo também aponta consequências da carcinicultura sobre os manguezais da bacia do Rio Pau Brasil e sobre áreas utilizadas pelas comunidades para atividades produtivas e de subsistência.

Outro ponto investigado é a estrutura conhecida como Ponte de Sagi, instalada em 1999 sobre o Rio Calvaçu. Segundo o diagnóstico, a estrutura de aduelas interfere na circulação das águas e no fluxo das marés, com consequências para a dinâmica estuarina e os manguezais. Entre os ambientes afetados está a área conhecida pela comunidade como Toca do Mero.

A erosão costeira também preocupa os pesquisadores. Os dados apresentados no experimento indicam recuo da linha de costa de até 4,46 metros por ano em determinados trechos, processo que ameaça áreas de uso comunitário e barracas de praia utilizadas por famílias indígenas como fonte de renda, especialmente durante o veraneio.

O Experimento do Mundo Real adota uma metodologia participativa que envolve as comunidades indígenas de Sagi-Trabanda e Sagi-Jacu, pesquisadores, órgãos públicos, instituições ambientais e representantes do sistema de Justiça.

As atividades incluem caminhadas diagnósticas pelo território, mapeamento colaborativo, oficinas, rodas de conversa, escrita compartilhada e ações de mediação institucional e judicial. As informações obtidas por geotecnologias e sensoriamento remoto são relacionadas aos conhecimentos tradicionais dos Potiguara, contribuindo para identificar nascentes, alterações nos cursos d’água, áreas degradadas e estruturas que interferem no funcionamento dos ecossistemas.

A proposta é incorporar a experiência das comunidades à produção de evidências e à construção de alternativas para a gestão territorial.

De acordo com a documentação do experimento, relatórios técnicos produzidos no âmbito do INCT Klimapolis foram incorporados aos autos da Justiça Federal, contribuindo para subsidiar a análise dos impactos ambientais relatados pelas comunidades.

No caso do Rio Calvaçu, o trabalho registra avanços na discussão sobre a retirada da estrutura de aduelas e na elaboração de um Termo de Referência pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Rio Grande do Norte (SEMARH-RN) e pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (IDEMA). A proposta prevê a recuperação de áreas degradadas e o desenvolvimento de uma solução de travessia que favoreça a circulação das águas.

Outra frente de atuação envolve a readequação das barracas de praia utilizadas pelas famílias indígenas. A proposta contempla a realocação das estruturas para áreas mais elevadas e menos expostas à erosão, com adoção de Soluções baseadas na Natureza (SbN), técnicas construtivas adaptadas ao contexto local e sistemas de saneamento biológico, como os tanques de evapotranspiração.

As medidas buscam conciliar a redução dos riscos ambientais, a recuperação ecológica e a manutenção das atividades econômicas comunitárias. A efetivação das intervenções depende do cumprimento das etapas técnicas e dos compromissos institucionais previstos.

Entre as perspectivas do experimento estão o avanço da demarcação territorial, a recuperação dos sistemas ecológicos e hídricos e o fortalecimento de atividades econômicas adaptadas às condições ambientais locais.

O trabalho também aponta possibilidades de estudos relacionados ao carbono azul, conceito associado ao carbono armazenado em ecossistemas costeiros e marinhos, como os manguezais. A participação em programas dessa natureza dependeria de avaliações técnicas, critérios ambientais e mecanismos institucionais específicos. “ A metodologia desenvolvida em Sagi pode contribuir para outras comunidades costeiras brasileiras que enfrentam problemas semelhantes, especialmente em territórios sujeitos à erosão, à degradação ambiental e a conflitos relacionados ao uso da terra e dos recursos naturais.A experiência em Sagi demonstra que a pesquisa científica pode contribuir para transformar diagnósticos socioambientais em subsídios para a tomada de decisões e para a formulação de políticas públicas. O desafio é garantir que esse conhecimento se traduza em medidas efetivas de proteção territorial, recuperação ambiental e fortalecimento da capacidade de adaptação da comunidade às mudanças climáticas.” Concluiu Venerando Amaro

A apresentação no ENANPARQ 2026 amplia o debate sobre a relação entre emergência climática, planejamento territorial e participação social. A experiência reforça a importância de aproximar universidades, comunidades e instituições públicas na construção de respostas aos desafios socioambientais.