Educação para a adaptação climática ainda avança lentamente, alerta relatório da UNESCO apresentado na ONU

A preparação das novas gerações para enfrentar as mudanças climáticas ainda está longe de acompanhar a velocidade da crise ambiental. Essa é uma das conclusões do Relatório Global de Monitoramento da Educação (GEM Report 2026), apresentado pela UNESCO durante o Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável (HLPF 2026), realizado na sede das Nações Unidas.

Os dados dialogam diretamente com a agenda do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Klimapolis (INCT Klimapolis), que desenvolve pesquisas voltadas à adaptação às mudanças climáticas, justiça climática e fortalecimento da resiliência dos territórios.

O levantamento revela que, entre 110 países analisados, 78 não incluem mudanças climáticas no currículo escolar do 3º ano, 50 ainda deixam o tema de fora no 6º ano e 28 sequer o abordam no 9º ano. Além disso, mais de 50 países não contemplam biodiversidade ou clima em seus currículos nacionais, evidenciando que milhões de estudantes chegam à vida adulta sem formação sistemática sobre um dos maiores desafios do século XXI.

Segundo a UNESCO, a educação precisa preparar crianças e jovens não apenas para ingressar no mercado de trabalho, mas também para compreender riscos ambientais, tomar decisões baseadas em evidências e participar da construção de sociedades mais resilientes.

O relatório também chama atenção para outro aspecto estratégico: as competências digitais. Atualmente, 68% da população utiliza redes sociais, mas apenas 24% conseguem verificar a confiabilidade de informações disponíveis na internet, enquanto somente 6% possuem conhecimentos de programação. Para especialistas, esses indicadores reforçam a necessidade de ampliar a alfabetização digital em um cenário marcado pela circulação de desinformação e pelo uso crescente da inteligência artificial.

Outro dado considerado preocupante é o financiamento da educação. Em 2024, a participação da educação nos orçamentos públicos caiu para 12,6%, ante 14,4% em 2010, enquanto 37% dos países não alcançaram nenhum dos parâmetros internacionais recomendados para investimento no setor. A redução de recursos ocorre justamente em um momento em que os sistemas educacionais precisam incorporar novas competências relacionadas à sustentabilidade, à ciência e à adaptação climática.

O relatório ainda evidencia que as desigualdades sociais continuam limitando o acesso à educação de qualidade. Nos países de baixa renda, para cada 100 estudantes mais ricos que concluem o ensino médio, apenas 13 estudantes pertencentes ao grupo mais pobre conseguem chegar à mesma etapa. A UNESCO alerta que essa desigualdade reduz a capacidade das populações mais vulneráveis de responder aos impactos das mudanças climáticas, que tendem a afetar com maior intensidade justamente os grupos socialmente mais frágeis.

Durante os debates do HLPF 2026, representantes da UNESCO defenderam que a educação voltada para o desenvolvimento sustentável deve deixar de ser um tema periférico e passar a integrar de forma transversal os currículos escolares. A organização também destacou a necessidade de ampliar a participação da juventude na elaboração, implementação e avaliação das políticas públicas, reconhecendo crianças e jovens como agentes ativos da transformação social e da adaptação climática.

Para o INCT Klimapolis, que reúne pesquisadores brasileiros dedicados ao estudo da variabilidade climática, adaptação e construção de cidades resilientes, os resultados reforçam que investir em educação climática representa também investir em prevenção de riscos, fortalecimento das comunidades e promoção da justiça climática. A formação de cidadãos capazes de compreender fenômenos ambientais complexos e participar das decisões públicas é apontada como um dos pilares para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.