Pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) sobre resiliência ecológica, qualidade da água e segurança hídrica foram destaque na edição de maio do ciclo de seminários do INCT Klimapolis 2026. A atividade contou com a palestra “Resiliência de lagos rasos e a segurança hídrica do município de Natal/RN”, ministrada pelo pesquisador José Luiz Attayde, professor titular do Departamento de Ecologia da UFRN.
O encontro debateu os impactos das mudanças climáticas e da expansão urbana sobre os sistemas aquáticos responsáveis pelo abastecimento público de Natal, enfatizando o papel estratégico da ciência produzida na universidade para o planejamento ambiental e a gestão sustentável dos recursos hídricos.
Na abertura do seminário, a pesquisadora Rita Yuri Ynoue apresentou a trajetória acadêmica do pesquisador que também é membro do INCT klimapolis , graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Ecologia pela mesma instituição e doutor em Ecologia pela Universidade de Lund, na Suécia. Atualmente, o pesquisador coordena estudos na UFRN voltados à limnologia teórica e experimental, com foco na dinâmica de redes alimentares e na ciclagem de nutrientes em lagos e reservatórios tropicais.
Durante a palestra, o Prof. José Attayde destacou conceitos fundamentais de resiliência ecológica e socioecológica, abordando a capacidade dos ecossistemas de absorver perturbações sem perder suas funções essenciais. Segundo o pesquisador, compreender esses mecanismos é decisivo para garantir a segurança hídrica das cidades diante do aumento das pressões ambientais e climáticas.
O professor explicou que os chamados “lagos rasos” apresentam características ecológicas específicas que os tornam particularmente sensíveis às transformações provocadas pela urbanização. Em Natal, dois desses sistemas possuem importância estratégica para o abastecimento humano: a Lagoa de Extremoz, responsável por cerca de 70% do abastecimento da Zona Norte, e a Lagoa do Jiqui, que contribui com aproximadamente 30% do abastecimento das zonas Sul, Leste e Oeste da capital.
Esses ecossistemas podem alternar entre diferentes estados ecológicos. Em condições equilibradas, predominam águas claras, maior biodiversidade e a presença de macrófitas submersas. No entanto, o aumento da carga de nutrientes decorrente da impermeabilização do solo, da expansão urbana e do lançamento de esgoto pode provocar processos de eutrofização, levando os sistemas a estados degradados, caracterizados por águas turvas e proliferação excessiva de plantas aquáticas flutuantes.
A palestra também apresentou resultados recentes de pesquisas de pós-graduação desenvolvidas na UFRN no âmbito do projeto. O trabalho de William Tomás investigou o balanço de massa de fósforo na Lagoa do Jiqui, demonstrando que o sistema retém aproximadamente metade da carga anual de fósforo recebida. O estudo também apontou limitações dos indicadores tradicionais utilizados no monitoramento de lagos rasos tropicais, que podem subestimar processos de eutrofização.
Já a pesquisa conduzida por Aline Macedo analisou as relações entre precipitação, cobertura de macrófitas aquáticas e parâmetros de qualidade da água. Os resultados identificaram correlação entre eventos de chuva e aumento da turbidez da lagoa, indicando maior vulnerabilidade do sistema a episódios extremos de precipitação, cenário que tende a se intensificar com as mudanças climáticas.
De acordo com Attayde, o avanço da urbanização na bacia do Rio Pitimbu, associado às alterações climáticas, pode reduzir significativamente a resiliência da Lagoa do Jiqui nos próximos anos. “Podemos estar nos aproximando de um ponto crítico, em que o sistema muda abruptamente para um estado de águas turvas, comprometendo o abastecimento e a segurança hídrica da cidade”, alertou o pesquisador.
Entre as medidas apontadas como prioritárias estão o fortalecimento da infraestrutura de saneamento, a recuperação da vegetação ciliar da bacia hidrográfica, a ampliação do monitoramento ambiental, a modernização das estações de tratamento de água e o fortalecimento de mecanismos de governança participativa.
Para o pesquisador, enfrentar os desafios relacionados à segurança hídrica exige integração entre ciência, gestão pública e sociedade. “Não precisamos esperar o colapso acontecer para agir. A ciência já mostra que o sistema está sob pressão e que medidas preventivas são urgentes”, concluiu.
O seminário reforçou o papel da UFRN como referência na produção de conhecimento científico voltado à sustentabilidade urbana, à adaptação climática e à proteção dos recursos hídricos no semiárido brasileiro.





