Pesquisadores do INCT Klimapolis analisam os desafios da adaptação climática na orla de Natal/RN

As mudanças climáticas têm intensificado riscos socioambientais em cidades costeiras brasileiras, exigindo novas abordagens para o planejamento urbano e a gestão do território. Nesse contexto, os pesquisadores do INCT Klimapolis, Ruth Maria da Costa Ataíde, Sarah de Andrade e Andrade e Venerando Eustáquio Amaro, publicaram o artigo “Mudanças do clima e os instrumentos urbanísticos: experiência acadêmico-popular para efetivação da agenda da adaptação climática na orla marítima de Natal-RN”, no qual analisam os desafios enfrentados pela capital potiguar diante dos impactos climáticos sobre sua faixa litorânea.


O estudo parte da compreensão de que a orla marítima de Natal configura-se como um espaço estratégico, tanto do ponto de vista ambiental quanto social e econômico, mas também altamente vulnerável a processos como erosão costeira, elevação do nível do mar, eventos extremos e pressão imobiliária. Frente a esse cenário, os autores investigam como os instrumentos urbanísticos existentes podem, ou não, contribuir para a construção de políticas públicas mais eficazes de adaptação climática.


Segundo Ruth Ataíde, uma das autoras do estudo, “a adaptação climática precisa ser incorporada de forma transversal ao planejamento urbano, considerando as dinâmicas territoriais e as desigualdades sociais que estruturam o espaço da cidade. Não se trata apenas de responder a eventos extremos, mas de reorganizar políticas públicas para reduzir vulnerabilidades históricas”.


Um dos eixos centrais da pesquisa é a análise da geodinâmica costeira da orla de Natal, evidenciando como os processos naturais, quando combinados às mudanças climáticas, ampliam riscos para populações locais, infraestrutura urbana e ecossistemas sensíveis. A partir dessa leitura territorial, os pesquisadores examinam o Plano Diretor de Natal, identificando limites, lacunas e possibilidades de integração entre políticas urbanas e estratégias de gestão do clima. “A leitura da geodinâmica da orla é fundamental para antecipar riscos e orientar decisões urbanísticas. Ignorar esses processos significa ampliar vulnerabilidades e comprometer a segurança de populações e infraestruturas em áreas sensíveis”, ressalta o pesquisador Venerando Amaro.


Segundo o artigo, a ausência de uma abordagem climática transversal nos instrumentos de planejamento compromete a capacidade do município de responder de forma preventiva aos impactos ambientais. Para os autores, a adaptação climática não pode ser tratada como um tema isolado, mas deve estar incorporada às políticas de uso do solo, habitação, mobilidade e proteção ambiental.
Para Sarah de Andrade, o envolvimento das comunidades locais é um elemento decisivo para o sucesso das estratégias de adaptação. “A experiência acadêmico-popular demonstrou que a construção coletiva de soluções amplia a legitimidade das políticas urbanas e permite que o planejamento dialogue com os problemas reais vividos no território. Quando a população participa, as respostas se tornam mais eficazes e socialmente justas”, afirma a pesquisadora.


Um dos diferenciais da pesquisa está na adoção de uma metodologia baseada na experiência acadêmico-popular, que articula produção científica com o envolvimento direto das comunidades locais. O estudo se debruça sobre o bairro de Ponta Negra, onde moradores, pesquisadores e atores institucionais participaram da construção de propostas para um plano setorial de adaptação climática.


Essa abordagem, conhecida como Experimento de Mundo Real (EMR) permitiu integrar saberes técnicos e conhecimentos do cotidiano, revelando percepções locais sobre riscos ambientais, vulnerabilidades sociais e prioridades de intervenção urbana.


Outro aspecto central do artigo é o diálogo entre adaptação climática e justiça socioambiental. Os pesquisadores destacam que os impactos das mudanças do clima atingem de forma mais intensa populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica.


Nesse sentido, o estudo aponta que políticas urbanas voltadas à adaptação precisam considerar desigualdades históricas de acesso à moradia segura, infraestrutura urbana e serviços públicos.


A pesquisa reforça o papel do INCT Klimapolis na produção de ciência aplicada ao território, orientada à construção de cidades mais resilientes, democráticas e preparadas para os desafios climáticos contemporâneos. Embora centrado em Natal/RN, o estudo oferece contribuições relevantes para outras cidades costeiras brasileiras, ao propor caminhos para integrar instrumentos urbanísticos, governança climática e participação social.