Brasil amplia monitoramento de MP2,5 com campanha coordenada pelo INCT Klimapolis

O Brasil ainda enfrenta grandes desafios no acompanhamento da qualidade do ar. Menos de 20% das estações de monitoramento no país medem MP2,5 – poluente considerado o mais nocivo por penetrar profundamente nos pulmões e até alcançar a corrente sanguínea. A ausência de informações precisas não só dificulta a implementação de políticas públicas eficazes, como também mantém a população exposta a riscos invisíveis para a saúde.

Diante desse cenário, uma ampla campanha de monitoramento de MP2,5 vem sendo realizada em 12 cidades brasileiras, com apoio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Klimapolis (INCT Klimapolis). A iniciativa, que reúne universidades, órgãos públicos e sociedade civil, busca preencher o “apagão de informação” sobre a poluição atmosférica, oferecendo subsídios técnicos e científicos para gestores e ampliando a participação da comunidade no debate sobre qualidade do ar.

Segundo os organizadores, o projeto está coletando mais de 800 filtros nas cidades de: São Paulo, Natal, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, Porto Alegre, Manaus, Belém, Uberlândia, Londrina, Campo Grande e Cuiabá. O trabalho envolve a pesagem dos filtros para identificar a concentração de MP2,5 – análises de refletância para determinar o black carbon e a avaliação de elementos-traço em laboratório.

Além do monitoramento com filtros, a campanha aposta também em sensores de baixo custo, que permitem maior capilaridade, possibilitando a instalação em escolas, residências e meios de transporte. Esses dispositivos envolvem estudantes, professores e comunidades, ampliando a divulgação de informações e estimulando a participação cidadã.

A coordenação da campanha está a cargo da professora Maria de Fátima Andrade, pesquisadora de produtividade do CNPq e professora titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, que está realizando o trabalho com pesquisadores da sub-rede de Ar e Ruído do INCT Klimapolis nas 12 cidades de diferentes regiões do Brasil. A professora Maria de Fátima é especialista em poluição atmosférica nos seus impactos na saúde e no clima e lidera a iniciativa com a perspectiva de que o projeto possa não apenas suprir a falta de dados, mas também fortalecer políticas públicas de controle da poluição.

Entrevista com a professora Maria de Fátima Andrade

Pesquisadora de Produtividade do CNPq e professora titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, coordenadora da campanha de monitoramento do MP2,5 no Brasil.

1. Qual é a principal motivação para lançar a campanha de monitoramento de MP2,5 no Brasil?

Maria de Fátima Andrade: Várias foram as motivações. Há muito pouca informação sobre a composição do material particulado no Brasil. Alguns experimentos foram realizados em especial em São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Mas o último levantamento da composição do MP realizado em várias cidades ao mesmo tempo foi em 2017. Com o Klimapolis houve a possibilidade de integração dos pesquisadores que trabalham com a atmosfera e assim realizar esse estudo.

2. Quais cidades já estão participando da iniciativa e como foram escolhidas?

Maria de Fátima Andrade: O experimento tomou uma grande proporção, são 12 cidades cobrindo todas as regiões brasileiras. No Lapat (Laboratório de Análise dos Processos Atmosféricos do IAG-USP) serão pesados todos os filtros antes e depois das amostragens para obtenção da concentração de MP2,5 e será realizada a refletância para termos o BC de todas as amostras. E a análise dos elementos-traço será realizada em Vitória. As cidades são: São Paulo, Natal, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, Porto Alegre, Manaus, Belém, Uberlândia, Londrina, Campo Grande, Cuiabá. No total mais de 800 filtros.

3. O que já dá para observar com a instalação dos sensores?

Maria de Fátima Andrade: Além desse monitoramento com filtros há também a instalação e operação de sensores de baixo custo. Neste caso há um caráter muito importante de divulgação da concentração de MP e da participação de estudantes e comunidade em geral.

4. O que explica a baixa cobertura de monitoramento de MP2,5 no país, mesmo sendo o poluente mais nocivo?

Maria de Fátima Andrade: A legislação estabelece que o MP seja amostrado com equipamentos específicos que são caros e de difícil manutenção. Assim muitos locais não dispõem de pessoal treinado, nem de equipamentos. E muitas vezes há os equipamentos mas não há a manutenção.

5. Quais são os maiores riscos de manter a população exposta a esse “apagão de informação”?

Maria de Fátima Andrade: Considero que o maior problema da falta de conhecimento é não saber quanto é a exposição e os impactos dela na saúde.

6. Como a falta de dados impacta diretamente na formulação de políticas públicas?

Maria de Fátima Andrade: Sem o conhecimento da qualidade do ar de uma região não há como determinar quais são as fontes poluidoras e estabelecer políticas para mitigação.

7. Qual é a vantagem do uso de sensores de baixo custo em comparação às estações tradicionais?

Maria de Fátima Andrade: As duas abordagens são necessárias. Os sensores de baixo custo apresentam facilidade de operação, custo acessível e podem ser instalados em diferentes lugares, incluindo escolas, residências e meios de transporte. Mas precisam ser calibrados também e as estações de referência têm um protocolo que garante a confiabilidade dos dados.

8. Como garantir a confiabilidade e a qualidade dos dados gerados por esses equipamentos?

Maria de Fátima Andrade: Eles devem passar por um processo de comparação das concentrações contra equipamentos de referência para a construção de curvas de calibração.

9. Existe algum plano de ampliar a integração dos dados com aplicativos ou plataformas acessíveis à população em tempo real?

Maria de Fátima Andrade: O governo federal tem uma plataforma que integra os dados das cidades com monitoramento. Creio que reforçar essa plataforma pode ser mais efetiva e mais duradoura.

10. De que forma a sociedade pode se envolver mais ativamente no acompanhamento da qualidade do ar?

Maria de Fátima Andrade: Acredito que as pessoas nas grandes cidades têm conhecimento dos efeitos prejudiciais da poluição do ar. Mas por falta de informação acessível na maior parte das cidades brasileiras, não se envolvem na busca por melhoria da qualidade do ar.

11. Como esses dados podem empoderar comunidades locais e influenciar decisões políticas?

Maria de Fátima Andrade: Acredito que o Klimapolis pode ter um papel importante pois sua metodologia de ação envolve a participação da comunidade em experimentos de mundo real.

12. Qual é o papel das parcerias entre universidades, órgãos públicos e sociedade civil para o sucesso dessa iniciativa?

Maria de Fátima Andrade: A abordagem de controle da poluição do ar no Brasil sempre foi desenvolvida com órgãos públicos, universidades e sociedade civil. O exemplo é o Programa de Controle de Emissões Veiculares (PROCONVE), que desde sua origem teve grupos de trabalho que consideraram inclusive o setor produtivo.

13. O Brasil pode chegar a ter uma rede nacional ampla e descentralizada de monitoramento de MP2,5?

Maria de Fátima Andrade: Esse é um dos objetivos da Secretaria das Cidades do Ministério do Meio Ambiente. Há o planejamento desse monitoramento em mais ampla escala. Mas não é simples pelo alto custo e falta de pessoal.

14. Que políticas públicas poderiam ser priorizadas se tivéssemos dados mais abrangentes?

Maria de Fátima Andrade: Cada região tem problemas específicos em termos de fontes de poluição. O conhecimento permitiria fazer o controle sobre as principais fontes de MP. Por exemplo: algumas cidades são impactadas pelas emissões veiculares, outras por refinarias, outras por queimadas.

15. O que a senhora espera que mude, em termos de saúde pública e consciência ambiental, a partir dessa campanha?

Maria de Fátima Andrade: Será uma campanha muito importante e vai depender de como faremos a divulgação dos resultados. Vamos precisar da imprensa para chegar à população. Acredito que os resultados trarão informações novas sobre a composição da atmosfera no Brasil.