Experimento do INCT Klimapolis no rio Pitimbu busca fortalecer a segurança hídrica na Grande Natal

A segurança hídrica na Grande Natal é o foco de um dos Experimentos de Mundo Real desenvolvidos pelo INCT Klimapolis. A pesquisa acompanha a bacia hidrográfica do rio Pitimbu, que abrange áreas de Macaíba, Parnamirim e Natal, para compreender as pressões sobre os recursos hídricos e fortalecer a participação dos diferentes usuários na gestão da água.

O trabalho parte de uma compreensão ampliada de segurança hídrica, que não se limita à quantidade de água disponível. A qualidade dos recursos hídricos e as condições de acesso também são componentes fundamentais, especialmente diante do avanço da urbanização, das mudanças climáticas e das disputas relacionadas aos diferentes usos da água.

A bacia do Pitimbu tem importância estratégica para o abastecimento público da região, especialmente por sua relação com a Lagoa do Jiqui e o sistema de captação e tratamento de água associado à Estação de Tratamento de Água (ETA) do Jiqui. O sistema de abastecimento da Grande Natal também utiliza águas subterrâneas e outros mananciais, incluindo o sistema da Lagoa de Extremoz, com áreas naturais, ocupação urbana e atividades produtivas. Entre os usos identificados estão a agricultura familiar, o abastecimento humano e atividades econômicas que dependem da água. Essa diversidade amplia a complexidade da gestão dos recursos hídricos.

Os pesquisadores alertaram que o crescimento urbano pode alterar a ocupação do solo, comprometer áreas de recarga e proteção dos mananciais e aumentar a pressão sobre a disponibilidade e a qualidade da água. As mudanças climáticas acrescentam outros desafios, relacionados à variabilidade das chuvas, às secas e aos eventos extremos. “O experimento busca compreender como essas pressões afetam os diferentes usuários e como o conhecimento científico pode contribuir para prevenir conflitos e melhorar a gestão da bacia. Uma das metas do trabalho é aproximar moradores, usuários da água, pesquisadores e instituições responsáveis pela gestão dos recursos hídricos. Muitos usuários participam do cotidiano da bacia, mas nem sempre conhecem seu funcionamento, sua importância para o abastecimento e os espaços institucionais de tomada de decisão.” Destacou o Prof. Jonathan Mota.

Para enfrentar esse desafio, foram desenvolvidas estratégias de aproximação com comunidades e comitês de bacia hidrográfica, buscando ampliar o acesso à informação e incentivar a participação social. O trabalho recebeu reconhecimento do Instituto de Gestão das Águas do Rio Grande do Norte (IGARN), em razão de uma atividade realizada com o objetivo de aproximar a população da realidade do rio Pitimbu, denominada “Pitimbu Presente”, conforme relatado na apresentação. A experiência também promoveu o convite para a participação da equipe na organização do encontro estadual dos comitês de bacias hidrográficas, previsto para ocorrer de 4 a 6 de novembro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Entre os resultados institucionais destacados está a contribuição para a criação de uma Câmara de Educação Ambiental no âmbito do conselho relacionado à gestão dos recursos hídricos. A iniciativa busca fortalecer a educação ambiental como instrumento de participação e ampliar o diálogo entre pesquisadores, gestores e comunidades. A equipe também mantém articulação com o comitê de bacia. O objetivo é ampliar o envolvimento de moradores e usuários que historicamente tiveram pouca participação nas reuniões e nos processos decisórios. “Apesar dos avanços, a adesão de agricultores e moradores das áreas próximas às nascentes ainda é limitada. Esse histórico representa um desafio para a pesquisa, que busca construir relações de confiança e ampliar o protagonismo dos usuários da água. Outro obstáculo é a distância entre os espaços formais de participação e o poder efetivo de decisão”.Concluiu a pesquisadora Karinne Deusdará.

Outra contribuição do experimento é a implantação de uma rede de monitoramento com três unidades distribuídas em diferentes trechos da bacia, incluindo áreas de montante e jusante. A iniciativa responde a uma lacuna de informações hidrológicas em uma região cuja importância para o abastecimento contrasta com a disponibilidade limitada de dados ambientais. Os equipamentos permitem acompanhar variáveis como precipitação, vazão e umidade do solo. Essas informações são importantes para compreender o comportamento hidrológico da bacia, avaliar a resposta às chuvas e subsidiar estudos de modelagem.

Uma das próximas etapas será incorporar medições de evapotranspiração, processo pelo qual a água retorna à atmosfera por evaporação do solo e das superfícies e pela transpiração das plantas. A inclusão dessa variável poderá contribuir para uma compreensão mais completa do balanço hídrico local. A produção dos dados também deverá apoiar estudos sobre os efeitos das mudanças climáticas e da expansão urbana sobre a disponibilidade de água e o funcionamento dos ecossistemas associados à bacia. A continuidade do experimento depende de ampliar a participação das comunidades, fortalecer a representação dos usuários nos espaços de gestão e consolidar a rede de monitoramento. A equipe também pretende avançar na produção científica e na integração dos dados ambientais aos estudos de modelagem.