Pesquisadora da UFRN debate impactos das mudanças climáticas na agricultura em seminário do INCT Klimapolis

As mudanças climáticas já estão afetando a agricultura brasileira e podem alterar de forma significativa a produtividade de diversas culturas nas próximas décadas. O tema foi discutido na abertura do Ciclo de Seminários 2026 do INCT Klimapolis, realizada em 11 de março, em formato on-line. A palestra foi ministrada pela pesquisadora Gizelly Cardoso Lima, pós-doutoranda do INCT Klimapolis vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Com o título “Mudanças Climáticas e sua Influência na Agricultura Brasileira”, a apresentação reuniu pesquisadores de diferentes instituições para discutir evidências científicas sobre como alterações na temperatura e no regime de chuvas já impactam a produção agrícola no país e quais são as projeções para as próximas décadas. Gizelly é doutora em Ciências Climáticas pela UFRN e mestre em Ciências Físicas Aplicadas pela Universidade Estadual do Ceará.

Durante a palestra, a pesquisadora apresentou resultados de estudos que relacionam variáveis climáticas, como temperatura média e precipitação, a indicadores de produtividade agrícola. As análises utilizam cenários climáticos projetados pelo Intergovernmental Panel on Climate Change e consideram fatores como cobertura vegetal associada aos cultivos e custos de produção, incluindo insumos e fertilizantes.

Segundo Gizelly, a tendência apontada por grande parte dos estudos é de impacto predominantemente negativo sobre a produção agrícola. “As mudanças climáticas tendem a afetar ainda mais a produtividade de culturas como soja, milho, cana-de-açúcar, mandioca, arroz e trigo, além das pastagens. A maioria dos estudos aponta impactos predominantemente negativos, com maior vulnerabilidade da agricultura familiar e das regiões Norte e Nordeste. Diante desse cenário, será necessário ampliar a produtividade com adaptação tecnológica e fortalecer políticas ambientais e de uso da terra”, afirmou.

As projeções apresentadas indicam que algumas culturas podem sofrer perdas de produtividade nas próximas décadas. Entre elas estão milho, feijão, café e laranja. Cultivos ligados à agricultura familiar, como mandioca e banana, também aparecem entre os mais vulneráveis às mudanças no clima. Em sentido oposto, determinadas culturas podem apresentar ganhos de produtividade em algumas regiões do país, como cana-de-açúcar, trigo e uva.

No caso da soja, os impactos tendem a variar de acordo com a região. As simulações indicam possibilidade de perdas em áreas de expansão agrícola do MATOPIBA, região que reúne partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, enquanto áreas do Centro-Sul podem registrar ganhos de produtividade em determinados cenários climáticos.

Além das diferenças entre culturas, a pesquisadora destacou as desigualdades regionais associadas aos impactos climáticos. Regiões com menor acesso a tecnologias agrícolas e infraestrutura tendem a enfrentar maiores dificuldades para se adaptar às mudanças no clima. Nesse contexto, agricultores familiares aparecem entre os grupos mais vulneráveis.

A abertura do ciclo de seminários do INCT Klimapolis reuniu pessoas interessadas no tema e cientistas de diferentes instituições brasileiras e discutiu estratégias para ampliar o diálogo entre pesquisa científica e sociedade. Segundo a professora da UFRN Judith Hoelzemann, uma das coordenadoras da iniciativa, a proposta é ampliar o alcance das discussões e aproximar o conhecimento científico de quem vive diretamente a realidade do campo. “Nossa intenção é ampliar ainda mais o público dos seminários. Queremos que essa discussão ultrapasse os muros da universidade, chegando também aos agricultores e às pessoas que vivem diretamente a realidade do campo”, afirmou.

A professora da Universidade de São Paulo, Rita Yuri Ynoue, destacou que o formato aberto dos encontros permite a participação do público e estimula o diálogo entre ciência e experiência prática. “A linguagem é acessível e o seminário é aberto a perguntas. Entendemos que a ciência também aprende com a experiência prática de quem está no campo. É uma troca de saberes”, afirmou.

O ciclo de seminários do INCT Klimapolis continuará ao longo de 2026 com apresentações de pesquisadores de diferentes áreas, abordando impactos das mudanças climáticas sobre sistemas produtivos, cidades e políticas públicas.