Sumário Popular e participação cidadã: entrevista com Ana Paula Koury

Nesta entrevista, a arquiteta e urbanista Ana Paula Koury comenta o processo de elaboração do Sumário Popular “O rio é meu vizinho?”, desenvolvido no âmbito do Lab Ermelino Matarazzo / INCT Klimapolis como parte de seu Experimento em Mundo Real. Na entrevista a seguir, Ana Paula Koury responde a oito perguntas sobre o Sumário Popular, explicando suas motivações, limites e potencialidades como instrumento de mediação entre o planejamento técnico da drenagem urbana e os moradores de Ermelino Matarazzo, reforçando a importância da compreensão e do engajamento social para a construção de cidades mais justas e ambientalmente equilibradas.

Ana Paula Koury é professora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com pós-doutorado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Desenvolve pesquisas sobre habitação social e urbanismo, com ênfase em periferias urbanas, mudanças climáticas e Laboratórios do Mundo Real, sua trajetória acadêmica e de pesquisa tem se dedicado a investigar formas de aproximação entre o conhecimento técnico, as políticas urbanas e o cotidiano das populações que vivenciam os efeitos dessas decisões.

Prof. Dr. Ana Paula Koury

1. De que maneira o Sumário Popular “O rio é meu vizinho?”  busca equilibrar a linguagem técnica sobre riscos socioambientais com uma linguagem acessível aos moradores do território?

Professora Ana Paula Koury: O Sumário Popular foi pensado justamente para traduzir informações técnicas e não para ensinar de forma escolar ou normativa. Por isso, não usamos o termo “cartilha”. A ideia foi transformar conteúdos complexos, como o funcionamento da drenagem, a lógica da bacia hidrográfica e propostas de intervenção, em algo que os moradores pudessem entender e usar para formar opinião e participar das decisões.

Esse equilíbrio se dá por meio de um material simplificado que adota ilustrações tridimensionais  e textos curtos que explicam os problemas e as soluções, evitando jargões técnicos. O rigor técnico é mantido, mas a forma de comunicação muda: em vez de relatórios longos, esquemas e desenhos abstratos, o material simplificado facilita a compreensão dos problemas apresentados e das soluções propostas pelos moradores, que, em sua maioria, não possuem formação técnica.

2. Como o Experimento em Mundo Real orientou a elaboração do material e quais foram os principais aprendizados desse processo?

Professora Ana Paula Koury: Durante o processo no Ermelino Matarazzo, ficou claro que muitos moradores queriam participar, mas tinham dificuldade em entender a linguagem usada nos planos de drenagem.

O principal aprendizado foi que a produção do Sumário Popular precisou ser uma resposta direta a essa dificuldade, surgindo ao longo do processo e não como algo planejado desde o início. A experiência reforçou que a articulação entre universidade, poder público e comunidade depende de ferramentas intermediárias de comunicação, que traduzam os diversos conhecimentos que incidem no território e apoiem a coprodução da cidade.

3. Quais critérios foram utilizados para identificar os pontos críticos de inundação em Ermelino Matarazzo e como isso se relaciona com a escala da bacia hidrográfica?

Professora Ana Paula Koury: É importante esclarecer que não coube ao Lab Ermelino identificar os pontos críticos de inundação. Esse trabalho técnico foi desenvolvido pelo Centro Tecnológico de Hidráulica da Universidade de São Paulo (CTH-USP), no âmbito da elaboração do plano de drenagem da bacia.

O papel do Lab Ermelino foi acompanhar, dialogar e traduzir esse conhecimento técnico, ajudando a tornar compreensível o funcionamento dos dispositivos hidráulicos adotados pelos especialistas, como as galerias de águas pluviais, a capacidade dos canais, a impermeabilização do solo e a lógica de funcionamento da bacia hidrográfica como um todo. O Sumário Popular não cria novos diagnósticos, mas explica como esses diagnósticos e os dispositivos vinculados a ele para a população local.

4. Como as propostas apresentadas articulam infraestrutura urbana, adaptação às mudanças climáticas e cuidado coletivo com o território?

Professora Ana Paula Koury: O Plano Diretor de Drenagem, ao qual o Caderno da Bacia Hidrográfica do Mongaguá e Dois Irmãos pertence, é muito importante, pois as obras de infraestrutura de drenagem também são essenciais para uma estratégia mais ampla de adaptação às mudanças climáticas, especialmente diante do aumento da frequência e da intensidade das chuvas e também do seu oposto, a escassez hídrica. Esses eventos têm maior impacto em áreas com urbanização deficitária, como é o caso de Ermelino Matarazzo. Ampliar a compreensão dos moradores sobre os problemas da urbanização, das inundações e das mudanças climáticas permite a participação qualificada nas audiências públicas e fortalece os canais institucionalizados da democracia participativa. 

Ao mesmo tempo, o Sumário Popular reforça que a infraestrutura, sozinha, não resolve tudo. Ele destaca a importância do cuidado coletivo com o local, como a relação com os córregos, o descarte de lixo e o uso dos espaços públicos, bem como a preservação permanente das áreas junto aos corpos d’água. A mensagem central é que a redução dos riscos depende tanto das obras quanto da forma como o território é ocupado e cuidado no dia a dia.

5. Qual foi o papel da participação de moradores, estudantes ou atores locais no desenvolvimento do material?

Professora Ana Paula Koury: A participação dos moradores e de atores locais foi fundamental para definir como o material deveria ser apresentado. As dúvidas, críticas e dificuldades de compreensão expressas nas audiências públicas e nas interações em campo deixaram claro que era necessário um material mais acessível.

Ou seja, o conteúdo técnico vem dos especialistas, mas a forma de comunicação foi moldada a partir do contato com a população. O Sumário Popular é resultado desse processo de escuta e diálogo, e não apenas de uma decisão técnica tomada em gabinete ou de um conhecimento acadêmico isolado.

6. De que forma o Sumário Popular contribui para ampliar o entendimento do planejamento urbano como ferramenta de redução de riscos socioambientais?

Professora Ana Paula Koury: Ao explicar, de forma clara, o que são bacias hidrográficas, como a urbanização afeta o ciclo hidrológico e como os dispositivos de drenagem funcionam, o material ajuda os moradores a perceber as relações de causa e efeito entre a ocupação do solo, as práticas cotidianas e as inundações, tornando o debate sobre planejamento e gestão da cidade mais tangível.

Isso é especialmente importante em áreas vulneráveis, onde o planejamento e a gestão costumam ser recebidos com indiferença. O Sumário Popular aproxima o cidadão do planejamento e da gestão da cidade por meio de um tema sensível, mostrando como decisões técnicas impactam diretamente o espaço e a vida das pessoas.

7. Como o material pode ser utilizado por gestores públicos, escolas ou organizações comunitárias, e quais seriam os próximos passos?

Professora Ana Paula Koury: O Sumário Popular foi desenvolvido como material de apoio às audiências públicas em Ermelino Matarazzo, facilitando o diálogo entre técnicos, gestores e moradores. Escolas e organizações comunitárias podem utilizá-lo como material de apoio para discutir questões ambientais e urbanas relacionadas ao território.

Como próximos passos, o material pode ser adaptado para outros bairros ou bacias, sempre respeitando as especificidades locais, e integrado a processos participativos contínuos, não apenas a momentos pontuais de consulta pública.

8. Quais elementos metodológicos do Sumário Popular podem ser replicados em outros territórios?

Professora Ana Paula Koury: Os principais elementos replicáveis são:

  • A ideia de Sumário Popular, inspirado no Sumário Executivo, como tradução da informação técnico-científica para apoiar a tomada de decisão;
  • O uso de linguagem visual e esquemas simples;
  • A construção do material a partir de processos participativos reais, e interações contínuas;
  • A articulação entre conhecimento técnico, gestão pública e saberes locais.

Esses elementos podem ser aplicados em outros territórios, facilitando o acesso à informação técnica e promovendo a participação social qualificada nos canais democráticos existentes no planejamento urbano brasileiro.

Acesse o Sumário abaixo: